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NO SCARPA360A BATALHA POR ENERGIA: EXPANSÃO DOS DATA CENTERS NO BRASIL ATRAI BILHÕES E ENFRENTA QUESTIONAMENTOS AMBIENTAIS
A expansão da inteligência artificial está levando ao Brasil uma disputa que ultrapassa o universo da tecnologia: como garantir energia, água e infraestrutura para grandes centros

A expansão da inteligência artificial está levando ao Brasil uma disputa que ultrapassa o universo da tecnologia: como garantir energia, água e infraestrutura para grandes centros de processamento de dados sem comprometer os recursos disponíveis para a população.
O país reúne anúncios bilionários, projetos de ampliação da rede elétrica e incentivos tributários para atrair esses empreendimentos. No Ceará, entretanto, o Data Center Pecém, destinado a atender o TikTok, tornou-se alvo de questionamentos sobre licenciamento ambiental e consulta às comunidades do entorno. O caso expõe o desafio de conciliar investimentos com controle dos impactos locais.
A infraestrutura física por trás da inteligência artificial
Data centers abrigam servidores, equipamentos de armazenamento e sistemas de comunicação. São instalações que sustentam serviços como computação em nuvem, plataformas digitais e aplicações de inteligência artificial.
A demanda não se limita ao treinamento de modelos: gerar respostas e manter serviços disponíveis também exige processamento. Segundo o relatório Energy and AI, da Agência Internacional de Energia (AIE), o consumo mundial de eletricidade dos data centers poderá mais que dobrar, chegando a aproximadamente 945 terawatts-hora em 2030. A inteligência artificial é apontada como o principal motor dessa expansão, ao lado de outros serviços digitais.
A projeção é um cenário de referência, e não um resultado garantido. Ainda assim, evidencia a dimensão do planejamento necessário para atender ao setor.
Brasil atrai investimentos, mas anúncios não significam capacidade instalada
Entre os empreendimentos anunciados está o primeiro data center do TikTok na América Latina, no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará. A empresa divulgou investimento estimado superior a R$ 200 bilhões, distribuído por diferentes etapas e horizontes, com início das operações previsto para 2027.
O anúncio inclui R$ 108 bilhões em equipamentos até 2035 e atualizações tecnológicas posteriores. Portanto, o valor total não corresponde a dinheiro já aplicado nem exclusivamente ao custo das edificações. A fase inicial envolve a Omnia, do grupo Pátria Investimentos, e a Casa dos Ventos.
A expansão também alcança estruturas já presentes no país. A Amazon Web Services anunciou, em setembro de 2024, um plano de R$ 10,1 bilhões até 2034 para expandir, construir, conectar, operar e manter data centers no Brasil.
Segundo a companhia, o investimento atende à demanda por computação em nuvem e inteligência artificial generativa. O exemplo mostra que a corrida envolve tanto novos complexos quanto a ampliação de operações existentes.
Ter energia disponível não resolve todos os obstáculos
O crescimento exige uma rede capaz de transportar eletricidade até os empreendimentos com segurança. Disponibilidade de geração e capacidade de conexão são questões diferentes.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) informou que os projetos de data centers em processo no Ministério de Minas e Energia passaram de 19,8 gigawatts, em setembro de 2025, para 26,2 gigawatts em novembro daquele ano.
Esses números representam solicitações relacionadas a projetos, não consumo efetivo. A própria EPE ressalta que sua concretização depende de transmissão, telecomunicações, viabilidade financeira e garantias de conexão.
Em São Paulo, estudos recomendaram aproximadamente R$ 1,6 bilhão em investimentos de transmissão, com potencial para liberar cerca de 4 gigawatts de margem de conexão. A empresa também descreve estudos para outras regiões.
A expansão pode aumentar a conta de luz?
A pergunta exige distinguir a energia comprada pelas empresas das obras necessárias para atendê-las. Contratar eletricidade não significa, por si só, resolver todos os custos de reforço da rede.
O debate regulatório envolve justamente a divisão dessas despesas. Em análise sobre acesso de grandes cargas, especialistas descrevem a discussão entre manter custos do usuário limitados ao seu ponto de conexão ou ampliar sua participação nos reforços estruturais.
Por isso, não é possível afirmar que qualquer novo data center provocará automaticamente aumento na tarifa residencial. O efeito depende da infraestrutura exigida e das regras de alocação de custos. A preocupação é evitar que benefícios privados sejam acompanhados de despesas desproporcionais para os demais usuários.
No Ceará, água e consulta às comunidades entram no centro da disputa
Em maio de 2026, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União recomendaram adequações no licenciamento do Data Center Pecém.
Os órgãos apontaram que a análise deveria considerar conjuntamente demanda elétrica, água, ruído, calor, geradores a diesel e impactos sobre comunidades. Também questionaram a suficiência do Relatório Ambiental Simplificado.
Na questão hídrica, destacaram a dependência de moradores de poços e o risco de a captação afetar a disponibilidade subterrânea. Trata-se de uma preocupação apontada pelos órgãos, não de comprovação de que o empreendimento já tenha provocado desabastecimento.
Em setembro, MPF e DPU levaram a discussão à Justiça, pedindo que o início da operação fosse condicionado à consulta ao povo indígena Anacé e à elaboração de Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental, o EIA/Rima.
O ajuizamento de uma ação não equivale, por si só, a uma determinação judicial de paralisação.
O que dizem os responsáveis pelo projeto
No anúncio do empreendimento, o TikTok afirmou que o abastecimento será feito com energia renovável proveniente de novos parques eólicos dedicados ao projeto.
A empresa também informou que utilizará resfriamento com recirculação de água em circuito fechado e equipamentos de maior eficiência. Segundo a companhia, essas soluções buscam minimizar a utilização de recursos.
Essas são características e compromissos divulgados pelos responsáveis. Sua verificação durante a implantação e a operação é parte importante do acompanhamento ambiental.
Incentivos fiscais vêm acompanhados de exigências
O Brasil sancionou, em setembro de 2026, a Lei 15.504, que criou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata.
O programa prevê suspensão de tributos sobre equipamentos, sujeita às condições legais. Entre as contrapartidas estão critérios de sustentabilidade, fornecimento de serviços ao mercado brasileiro e atendimento da demanda contratual de eletricidade por fontes renováveis ou de baixa emissão.
A legislação também estabelece índice de eficiência hídrica para resfriamento de até 0,05 litro por quilowatt-hora, medido anualmente, e publicação de relatórios de sustentabilidade. Esse indicador não deve ser confundido com o consumo total de água de todas as atividades da instalação.
A disputa global já alcança a energia nuclear
Nos Estados Unidos, a busca por eletricidade motivou o acordo de 20 anos entre Microsoft e Constellation para apoiar a retomada da Unidade 1 de Three Mile Island.
A unidade é distinta do reator envolvido no acidente de 1979. O projeto ilustra como a expansão digital está reorganizando decisões sobre geração de energia, inclusive com tentativas de recuperar instalações desativadas.
No Brasil, a questão central será transformar investimentos anunciados em infraestrutura viável, com compromissos verificáveis. Isso passa por esclarecer quanto cada projeto consumirá, quais obras exigirá, como os custos serão distribuídos e de que forma as comunidades participarão das decisões.
Carregando resultado da apuração das urnas…