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ÁLCOOL NA ADOLESCÊNCIA PODE DEIXAR EFEITOS ATÉ A VIDA ADULTA, APONTA ESTUDO DA UNIFESP

Experimentos com camundongos indicaram alterações duradouras na avaliação de riscos e, dependendo do sexo e do período de exposição, aumento posterior do consumo de álcool

ÁLCOOL NA ADOLESCÊNCIA PODE DEIXAR EFEITOS ATÉ A VIDA ADULTA, APONTA ESTUDO DA UNIFESP

Este leitor apresenta um resumo da notícia para avaliar o projeto visual. A reportagem completa está no Scarpa360.

O consumo excessivo de álcool durante a adolescência pode interferir em processos relacionados ao amadurecimento cerebral e produzir efeitos comportamentais que permanecem na vida adulta. É o que indicam estudos realizados por pesquisadores da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), com apoio da FAPESP.

Os pesquisadores utilizaram camundongos expostos a altas doses de etanol durante diferentes momentos da adolescência. Os experimentos foram planejados para simular episódios intensos e intermitentes de intoxicação alcoólica — padrão semelhante ao chamado binge drinking, caracterizado pelo consumo elevado em um curto período.

Os animais receberam quatro exposições ao álcool durante a adolescência. Segundo a coordenadora das pesquisas, Karina Possa Abrahão, professora do Departamento de Fisiologia da EPM-Unifesp, a frequência foi ajustada proporcionalmente ao ciclo de vida dos camundongos e corresponderia, de forma aproximada, a episódios recorrentes de intoxicação durante a adolescência humana.

ALTERAÇÕES PERMANECERAM NA VIDA ADULTA

Um dos estudos, publicado na revista Physiology & Behavior, avaliou animais expostos ao etanol no início da adolescência. Nos machos, os pesquisadores observaram posteriormente redução de comportamentos de avaliação de risco e maior tendência a decisões arriscadas na idade adulta.

Nas fêmeas, esse mesmo padrão de tomada de risco não apareceu da mesma maneira. Entretanto, quando tiveram acesso ao álcool já adultas, aquelas que haviam sido expostas durante a adolescência apresentaram maior consumo voluntário da bebida.

Outro trabalho, publicado na Alcohol, Clinical and Experimental Research, analisou a exposição no final da adolescência. Nesse caso, tanto machos quanto fêmeas apresentaram posteriormente alterações persistentes na forma como avaliavam situações de risco.

Os pesquisadores identificaram uma redução de comportamentos em que o animal normalmente avalia uma ameaça antes de decidir avançar. As análises das sequências comportamentais mostraram uma reorganização das estratégias de decisão, com maior tendência a comportamentos associados à tomada de risco.

POR QUE A ADOLESCÊNCIA É UM PERÍODO SENSÍVEL?

O cérebro continua passando por mudanças importantes durante a adolescência e início da vida adulta. Entre as regiões que amadurecem mais tardiamente está o córtex pré-frontal, relacionado a funções como tomada de decisão, avaliação das consequências e controle de impulsos.

Segundo Abrahão, essa característica pode ajudar a explicar por que exposições intensas ao álcool nesse período têm potencial para interferir em circuitos envolvidos no controle comportamental. A pesquisadora destaca que o impacto tende a ser maior enquanto o cérebro ainda está em processo de maturação.

Os próprios estudos, porém, foram conduzidos em modelos animais. Isso significa que os resultados ajudam a investigar possíveis mecanismos biológicos, mas não demonstram diretamente que todo adolescente que consome álcool desenvolverá os mesmos comportamentos na vida adulta.

CONSUMO ENTRE JOVENS NO BRASIL

O tema ganha relevância diante dos dados sobre consumo de álcool entre jovens brasileiros.

Segundo os dados citados pela Agência FAPESP a partir do 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira, cerca de 5% dos adolescentes de 12 a 17 anos relataram pelo menos um episódio de consumo excessivo de álcool nos 30 dias anteriores ao levantamento. Entre jovens de 18 a 24 anos, o percentual chega a 20,5%.

Dados mais recentes divulgados pelo Ministério da Saúde também mostram que o consumo excessivo permanece relevante na população adulta: em 2025, 20,4% dos brasileiros com mais de 18 anos relataram consumo de pelo menos seis doses em uma mesma ocasião.

No Brasil, a venda, o fornecimento e o consumo de bebidas alcoólicas por menores de 18 anos são proibidos.

PESQUISAS CONTINUAM

Os trabalhos fazem parte de uma linha de pesquisa que busca compreender de que maneira episódios de intoxicação durante diferentes fases do desenvolvimento podem modificar o comportamento posteriormente.

Os resultados publicados em 2026 indicam que o momento da exposição e o sexo dos animais podem influenciar o tipo de consequência observada, reforçando que os efeitos do álcool durante o desenvolvimento cerebral são complexos e ainda precisam ser aprofundados.

Os dois artigos são intitulados Alcohol or Stress Exposure During Late Adolescence Impairs Risk Assessment Later in Life, Disrupting the Ethological Structure of Behavior in Mice e Repeated Early-Adolescent Ethanol Intoxication Promotes Riskier Decision-Making in Adult Male Mice and Increases Drinking in Adult Female Mice.

23 de set. de 2026 · Redação Scarpa360