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AQUECIMENTO GLOBAL AGRAVOU CONDIÇÕES QUE LEVARAM A DESASTRE COM MAIS DE 1,4 MIL MORTOS NO NEPAL, DIZ ESTUDO

Análise internacional aponta que degelo de geleiras, perda do permafrost e temperaturas anormalmente altas contribuíram para tornar encosta no Himalaia mais instável; pesquisadores

AQUECIMENTO GLOBAL AGRAVOU CONDIÇÕES QUE LEVARAM A DESASTRE COM MAIS DE 1,4 MIL MORTOS NO NEPAL, DIZ ESTUDO
Imagem: Arun Sankar/AFP

Este leitor apresenta um resumo da notícia para avaliar o projeto visual. A reportagem completa está no Scarpa360.

O aquecimento provocado pelas atividades humanas ajudou a criar condições mais favoráveis ao gigantesco colapso de rocha e gelo que atingiu o Nepal e áreas próximas da fronteira com a China em 26 de agosto de 2026. A conclusão é de uma análise divulgada nesta quinta-feira (17) pelo grupo internacional World Weather Attribution (WWA), formado por pesquisadores especializados em eventos extremos e mudanças climáticas.

O desastre começou quando uma enorme porção da montanha Langtang Lirung desabou a cerca de 5.150 metros de altitude, arrastando parte da geleira. A massa de rochas e gelo caiu aproximadamente 1.400 metros e se transformou rapidamente em uma avalanche e, depois, em uma violenta enxurrada de água, sedimentos e detritos.

Dados mais recentes indicam mais de 1.400 mortos no Nepal e milhares de desaparecidos. A destruição atingiu comunidades, estradas, instalações de hidrelétricas e áreas próximas à fronteira. A dimensão da tragédia continua sendo atualizada pelas autoridades.

CALOR, GELO E ROCHA CRIARAM UMA COMBINAÇÃO PERIGOSA

Os pesquisadores evitam atribuir o desastre a uma única causa. Segundo o estudo, a estrutura geológica da montanha determinou onde a encosta poderia romper, mas décadas de aquecimento contribuíram para enfraquecer o ambiente de alta montanha.

O aumento das temperaturas favorece o derretimento do gelo existente nas fissuras das rochas e a degradação do permafrost, camada do solo e das rochas que permanece congelada por longos períodos. Quando esse gelo desaparece, fraturas podem perder estabilidade e a água do degelo pode aumentar a pressão dentro das estruturas rochosas.

As geleiras da região também vêm perdendo massa há décadas. Segundo o WWA, o afinamento equivale a mais de meio metro por ano, enquanto o recuo da geleira de Langtang Lirung se acelerou significativamente desde 2010.

REGIÃO ESTAVA ANORMALMENTE QUENTE

Outro fator identificado foi o calor registrado antes do desastre. Julho e agosto estiveram entre os períodos mais quentes observados na área, e a análise calcula que a mudança climática causada pelo homem acrescentou aproximadamente 1,5°C às temperaturas desses dois meses naquela região.

Considerando médias anuais, o aquecimento atribuído às atividades humanas chega a cerca de 2°C no local, acima do aumento médio global.

A altitude em que a temperatura chega a 0°C também está subindo. Segundo os pesquisadores, essa chamada linha de congelamento avançou para cima em aproximadamente 100 metros por década durante determinadas estações nas últimas décadas. Isso favorece o degelo do permafrost, o recuo de geleiras e a transformação de neve em chuva em altitudes cada vez maiores.

TERREMOTO DE 2015 TAMBÉM PODE TER DEIXADO MARCAS

O clima, porém, não explica tudo. O terremoto de magnitude 7,8 que atingiu o Nepal em 2015 provocou deslizamentos e avalanches na mesma região. Pesquisadores avaliam que o tremor pode ter deixado partes da montanha estruturalmente enfraquecidas, aumentando a vulnerabilidade ao longo dos anos.

Ainda não é possível determinar exatamente quanto o terremoto contribuiu para o rompimento de 2026. Por isso, os cientistas descrevem o episódio como uma crise composta, formada pela interação entre geologia, aquecimento, degelo e outros processos naturais.

ENXURRADA CHEGOU A QUASE 190 KM/H

A escala do evento impressionou os pesquisadores. Depois do colapso, a mistura de gelo, rocha, água e sedimentos percorreu o vale a uma velocidade média estimada em 188 km/h em um dos primeiros trechos.

A onda de detritos alcançou a área fronteiriça de Rasuwagadhi, localizada cerca de 22 quilômetros abaixo da origem do deslizamento, em apenas sete minutos. A rapidez tornou praticamente impossível fornecer alertas com antecedência suficiente às comunidades mais próximas.

CIENTISTAS ALERTAM PARA RISCO CRESCENTE NO HIMALAIA

O estudo não afirma que o colapso necessariamente deixaria de acontecer sem a mudança climática. Para chegar a essa conclusão seriam necessárias informações adicionais sobre temperaturas subterrâneas, pressão da água nas fraturas e evolução mecânica da encosta.

A conclusão dos pesquisadores é mais específica: o rápido aquecimento do Himalaia está aumentando fatores capazes de tornar grandes deslizamentos de gelo e rocha mais prováveis e destrutivos.

Dados citados anteriormente pela ONU indicam que as geleiras das montanhas nepalesas perderam aproximadamente um terço de sua cobertura de gelo ao longo de três décadas. Especialistas alertam que a continuidade do aquecimento pode ampliar o número de enchentes, avalanches e outros eventos extremos em regiões montanhosas.

O WWA defende ampliação do monitoramento por satélites e sensores, compartilhamento de informações entre países e sistemas de alerta mais avançados. Os pesquisadores, no entanto, ressaltam que eventos extremamente rápidos e de grande escala podem ultrapassar até mesmo a capacidade dos atuais mecanismos de adaptação.

17 de set. de 2026 · Redação Scarpa360