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BRASIL FECHA SEMESTRE COM 6,4 MIL EMPRESAS EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL E BASE AMPLA BATE RECORDE COM 8.080 CNPJS

Levantamento aponta alta de 22% em 12 meses no principal recorte; juros de 14%, crédito mais restrito e recorde de empresas inadimplentes ajudam a explicar o ambiente de pressão so

BRASIL FECHA SEMESTRE COM 6,4 MIL EMPRESAS EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL E BASE AMPLA BATE RECORDE COM 8.080 CNPJS
Imagem: Ricardo Stuckert / PR

Este leitor apresenta um resumo da notícia para avaliar o projeto visual. A reportagem completa está no Scarpa360.

O Brasil encerrou o primeiro semestre de 2026 com 6.382 empresas em recuperação judicial no principal recorte do Monitor RGF-BIZDOC, levantamento elaborado a partir de dados da Receita Federal, dos Tribunais de Justiça, da CVM e da B3.

O número representa crescimento de 6,5% desde dezembro de 2025 e avanço de 22% na comparação com junho do ano passado, mostrando que o volume de companhias que dependem da proteção judicial para reorganizar suas dívidas permanece em nível elevado.

Na base mais ampla do estudo, que considera um universo maior de CNPJs, o total chegou a 8.080 empresas vinculadas a recuperações judiciais, novo recorde do levantamento e alta de 4,1% somente no segundo trimestre.

A trajetória durante o semestre, porém, não foi uma escalada contínua. O recorte estrito registrava 5.970 empresas em dezembro de 2025. O número avançou para 6.362 em fevereiro, 6.406 em março e chegou a 6.513 em abril. Em maio, caiu para 6.341 e terminou junho em 6.382.

Isso significa que o segundo trimestre apresentou uma relativa estabilização depois de vários períodos de crescimento. Ainda assim, os responsáveis pelo monitor avaliam que é cedo para afirmar que a pressão financeira sobre as empresas tenha sido revertida.

O levantamento também registrou aumento das falências. Ao fim de junho, havia 2.808 empresas classificadas como falidas na base da Receita Federal, acréscimo de 34 no segundo trimestre e de 76 desde o início do ano.

A recuperação judicial, no entanto, não é sinônimo de falência. O procedimento previsto na legislação brasileira permite que uma empresa financeiramente pressionada negocie dívidas, apresente um plano aos credores e tente manter suas atividades, empregos e contratos. A falência ocorre quando a continuidade do negócio se torna inviável ou quando a recuperação não consegue atingir seus objetivos.

Os números aparecem em um momento de forte pressão financeira sobre o setor empresarial. A taxa básica de juros do Brasil, a Selic, está em 14% ao ano, conforme decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central em agosto. Juros elevados encarecem empréstimos, financiamento de capital de giro e refinanciamento das dívidas das empresas.

Ao mesmo tempo, a inadimplência empresarial atingiu outro recorde. Dados da Serasa Experian mostram que mais de 9,1 milhões de empresas estavam inadimplentes em junho, acumulando R$ 232,9 bilhões em dívidas negativadas. As micro e pequenas empresas representavam 8,6 milhões desses CNPJs e concentravam R$ 201,4 bilhões das dívidas.

Segundo a Serasa, cada empresa inadimplente acumulava, em média, 7,3 contas atrasadas, com dívida média superior a R$ 25,5 mil.

Os dados ajudam a entender por que algumas empresas chegam à recuperação judicial depois de meses ou anos enfrentando dificuldades para obter crédito, renovar dívidas e preservar o caixa.

O cenário ganhou ainda mais repercussão em 2026 por envolver marcas conhecidas dos brasileiros.

Em agosto, o Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial envolvendo aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas sujeitas ao processo. A companhia apontou juros elevados, crédito mais restrito, aumento dos custos financeiros e pressão sobre o consumo entre os fatores que agravaram sua situação.

A varejista também passa por uma ampla reorganização operacional, com fechamento de centenas de lojas e uma disputa judicial envolvendo demissões coletivas. A Justiça do Trabalho manteve suspensa parte das dispensas enquanto empresa e entidades sindicais discutem o caso.

A Braskem tomou outro caminho. A petroquímica protocolou uma recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em dívidas, valor equivalente a dezenas de bilhões de reais. Diferentemente da recuperação judicial, esse modelo busca construir previamente um acordo com parte dos credores e depois submetê-lo à Justiça.

O grupo responsável por Tok&Stok e Mobly também entrou em recuperação judicial neste ano, com dívida superior a R$ 1 bilhão, em meio a dificuldades financeiras e à pressão enfrentada pelo setor de móveis e decoração.

No agronegócio, a deterioração também aparece nos números. A Serasa Experian registrou 474 pedidos de recuperação judicial ligados à cadeia agro no primeiro trimestre de 2026, alta de 21,9% em relação ao mesmo período de 2025. Entre produtores rurais que atuam como pessoa jurídica, o crescimento chegou a 73,5%.

A própria Serasa relaciona o movimento a fatores como crédito mais seletivo, custos elevados de produção e maior nível de endividamento entre parte dos produtores.

É importante, porém, diferenciar os indicadores. O Monitor RGF-BIZDOC acompanha principalmente o estoque de empresas que já estão em recuperação judicial, enquanto a Serasa contabiliza novos pedidos apresentados em determinados períodos. Portanto, os números não podem ser somados ou comparados diretamente.

Também seria incorreto atribuir todas as recuperações judiciais a uma única causa. Juros e crédito mais caro influenciam o ambiente de negócios, mas cada empresa possui uma combinação própria de fatores, que pode incluir endividamento excessivo, decisões de expansão, perda de mercado, custos operacionais, mudanças tecnológicas, concorrência, problemas de gestão ou eventos específicos de seu setor.

O que os indicadores mostram é um quadro amplo de estresse financeiro: enquanto milhares de companhias tentam reorganizar suas dívidas na Justiça, milhões de outras acumulam contas em atraso.

Mesmo com a leve estabilização do segundo trimestre, o total permanece muito acima do registrado há um ano, mantendo a recuperação judicial como um dos principais sinais de alerta sobre a saúde financeira das empresas brasileiras em 2026.

27 de ago. de 2026 · Redação Scarpa360