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ESTUDO APONTA QUE PRINCÍPIO ATIVO DO VIAGRA PODE DIFICULTAR A DISSEMINAÇÃO DO CÂNCER
Pesquisa do Instituto Weizmann identificou um mecanismo pelo qual a sildenafila interfere no uso de colesterol pelas células tumorais e pode reduzir sua capacidade de formar metást

Este leitor apresenta um resumo da notícia para avaliar o projeto visual. A reportagem completa está no Scarpa360.
Um medicamento mundialmente conhecido pelo tratamento da disfunção erétil pode ganhar, no futuro, uma aplicação completamente diferente. Pesquisadores do Instituto Weizmann de Ciências, em Israel, descobriram que a sildenafila, princípio ativo do Viagra, pode dificultar um dos processos mais perigosos do câncer: a formação de metástases, quando células tumorais deixam o tumor original e alcançam outros órgãos. O trabalho foi publicado em 2026 na revista científica Cancer Research.
A pesquisa foi liderada pelo cientista Yarden Ariav, no laboratório da professora e médica Ayelet Erez. Os pesquisadores descobriram que o efeito não ocorre simplesmente porque o medicamento altera a circulação sanguínea. A chave está na maneira como as células cancerígenas conseguem utilizar o colesterol, substância fundamental para a formação das membranas celulares e especialmente importante durante o processo de migração das células tumorais pelo organismo.
A sildenafila bloqueia uma enzima chamada PDE5, aumentando no organismo os níveis de uma molécula conhecida como cGMP. Esse mecanismo já é conhecido por promover a dilatação dos vasos sanguíneos e está por trás do efeito do Viagra contra a disfunção erétil. O estudo revelou, porém, uma função até então pouco conhecida: o aumento do cGMP interfere na proteína NPC1, responsável por transportar colesterol dentro das células.
Na prática, parte do colesterol acaba ficando retida em estruturas celulares chamadas lisossomos e deixa de ficar disponível para outras funções da célula tumoral. Com menos acesso a esse recurso, as células cancerígenas apresentaram maior dificuldade para migrar, invadir outros tecidos e estabelecer novos tumores em órgãos distantes. Os cientistas observaram ainda alterações na estrutura das membranas e no funcionamento energético das células.
Os resultados não foram obtidos a partir de apenas um tipo de experimento. A equipe trabalhou com modelos de câncer em camundongos, culturas de células tumorais provenientes de pacientes humanos e informações médicas acumuladas ao longo de aproximadamente 20 anos. A análise de dados envolveu cerca de 5 milhões de integrantes do sistema de saúde israelense Clalit, um dos maiores bancos utilizados nesse tipo de investigação.
Ao analisar os prontuários, os pesquisadores identificaram uma associação entre o uso de sildenafila e maior sobrevida entre pacientes com câncer. A relação apareceu de forma ainda mais pronunciada entre pessoas que utilizavam simultaneamente estatinas, medicamentos amplamente prescritos para reduzir o colesterol. Por se tratar dessa parte de uma análise observacional, os dados mostram associação e não demonstram, sozinhos, que a sildenafila tenha sido responsável pela maior sobrevida.
A combinação despertou interesse porque os dois medicamentos atuariam em pontos diferentes do mesmo problema. Enquanto a sildenafila interfere no transporte e na disponibilidade do colesterol dentro da célula, as estatinas reduzem sua produção, criando uma ação complementar contra uma necessidade metabólica importante das células metastáticas. Nos experimentos, a combinação apresentou efeito antimetastático adicional.
A descoberta abre caminho para o chamado reposicionamento de medicamentos, estratégia que busca novas aplicações para substâncias que já são utilizadas e têm seus perfis farmacológicos amplamente conhecidos. A sildenafila é empregada há décadas para disfunção erétil e também possui utilização médica em hipertensão arterial pulmonar.
Apesar dos resultados promissores, o estudo não estabelece o Viagra como tratamento aprovado contra o câncer. Os achados representam uma nova possibilidade de pesquisa e ainda precisam ser avaliados em estudos clínicos especificamente desenhados para determinar quais tipos de câncer poderiam responder, quais doses seriam adequadas e como o medicamento poderia ser combinado com terapias oncológicas já existentes.
A importância da descoberta está justamente na metástase. Segundo o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, é nesse processo que células malignas se desprendem do local onde surgiram e formam novos tumores em outras regiões do corpo, sendo a doença metastática responsável pela maior parte das mortes relacionadas ao câncer.
O trabalho, portanto, não indica uma nova “cura” para o câncer, mas revela um mecanismo biológico inesperado envolvendo um dos medicamentos mais conhecidos do mundo e oferece aos pesquisadores uma nova estratégia para tentar impedir que tumores se espalhem pelo organismo.
Carregando resultado da apuração das urnas…