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GRUPO MATEUS FECHA 28 LOJAS E REDUZ QUADRO EM 6,7 MIL POSTOS EM ANO MARCADO POR REESTRUTURAÇÕES NO VAREJO BRASILEIRO
Rede reduziu quase 14% de sua força de trabalho após período de forte expansão; movimento ocorre em um 2026 marcado por recuperações judiciais de Casas Bahia, Tok&Stok, Marabraz e

Este leitor apresenta um resumo da notícia para avaliar o projeto visual. A reportagem completa está no Scarpa360.
O Grupo Mateus, uma das maiores redes de varejo alimentar do Brasil, passou por uma profunda reorganização operacional entre o fim de 2025 e o primeiro trimestre de 2026. Nesse período, a companhia reduziu seu quadro de aproximadamente 47,9 mil para 41,2 mil funcionários, uma diferença de 6.673 postos de trabalho, equivalente a cerca de 13,9% da força de trabalho. A empresa também encerrou 28 lojas e inaugurou quatro novas unidades no primeiro trimestre.
Os ajustes se concentraram principalmente nas operações do Maranhão, Pará, Piauí, Ceará, Sergipe e Bahia. Segundo informações divulgadas pela companhia e repercutidas pelo mercado, o movimento fez parte de projetos de racionalização das estruturas, aumento de produtividade e redução de despesas após anos de expansão acelerada. O presidente do conselho de administração, Ilson Mateus Rodrigues, chegou a afirmar que a revisão de custos continuaria, mas indicou que novas reduções de funcionários não deveriam ocorrer na mesma intensidade.
A reorganização ocorreu em meio a um cenário mais difícil para o consumo. No primeiro trimestre, as vendas das lojas que já estavam em funcionamento recuaram 7,3%. Analistas relacionaram o desempenho à deflação de alimentos, restrição de crédito ao consumidor e maior endividamento das famílias. Mesmo assim, a receita líquida cresceu em relação ao ano anterior, impulsionada principalmente pela incorporação do Novo Atacarejo.
Os números mais recentes mostram que o Grupo Mateus não interrompeu sua expansão. No segundo trimestre, foram inauguradas sete unidades, levando o total de novas lojas no primeiro semestre a 11. Ao fim de junho, a companhia tinha 313 unidades em operação. A receita líquida do segundo trimestre chegou a R$ 9,85 bilhões, crescimento de 12,2% em um ano.
O lucro líquido alcançou R$ 236,8 milhões entre abril e junho. O resultado representa recuperação de 11,2% em relação ao primeiro trimestre, mas queda de 39,3% na comparação com o mesmo período de 2025. Já as vendas nas mesmas lojas recuaram 8%, demonstrando que a expansão da receita tem ocorrido ao mesmo tempo em que as unidades maduras enfrentam um consumidor mais cauteloso.
A estratégia também passou a ser mais seletiva na utilização de capital. No segundo trimestre, os investimentos caíram 36,5%, para cerca de R$ 162 milhões. A companhia vem priorizando margens, produtividade e retorno dos investimentos, em vez de manter o mesmo ritmo acelerado de expansão observado em anos anteriores.
Por isso, apesar de publicações nas redes sociais apresentarem os fechamentos como sinal de que a empresa estaria “quebrando”, os dados não sustentam essa conclusão. O Grupo Mateus não está em recuperação judicial nem em processo de falência. A empresa segue lucrativa, abrindo unidades e ampliando a receita, embora enfrente queda nas vendas comparáveis e tenha realizado uma forte redução de custos.
O episódio, porém, ocorre em um momento de maior pressão sobre diferentes grandes empresas brasileiras, especialmente no varejo.
Um dos casos mais relevantes de 2026 é o da Casas Bahia. O grupo entrou com pedido de recuperação judicial em agosto para tentar reestruturar R$ 17,3 bilhões em dívidas. A companhia citou juros elevados, restrição de crédito, aumento dos custos financeiros e pressão sobre o consumo e o capital de giro entre os fatores que agravaram sua situação.
Antes do pedido, a rede confirmou o fechamento de 298 lojas. Uma disputa trabalhista também surgiu após demissões coletivas realizadas em agosto. Segundo informações apresentadas no processo pela Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio, milhares de trabalhadores foram atingidos. A Justiça do Trabalho chegou a suspender provisoriamente os efeitos das demissões e restringir novos cortes sem negociação sindical.
Outro caso foi o Grupo Toky, controlador das marcas Tok&Stok e Mobly. A empresa entrou com pedido de recuperação judicial em maio com dívida de aproximadamente R$ 1,12 bilhão. A companhia atribuiu parte da crise aos juros altos, ao endividamento das famílias, à retração do consumo de móveis e decoração e a prejuízos operacionais acumulados. A Justiça paulista posteriormente autorizou o processamento da recuperação.
A tradicional fabricante de brinquedos Estrela também recorreu à recuperação judicial neste ano. Seu plano, apresentado em agosto, envolve cerca de R$ 109 milhões em dívidas. A empresa citou aumento do custo de capital, crédito mais restrito, transformação dos hábitos de consumo e concorrência crescente de produtos importados e alternativas digitais.
Já a Marabraz, conhecida rede paulista de móveis e eletrodomésticos, protocolou em agosto um pedido de recuperação judicial envolvendo aproximadamente R$ 140 milhões. A varejista relacionou sua situação financeira aos juros elevados, retração do consumo, inadimplência, transformação do comércio e conflitos societários.
Fora do varejo, a Braskem também entrou em processo de reestruturação, mas por meio de recuperação extrajudicial. A petroquímica busca renegociar dezenas de bilhões de reais em compromissos financeiros, em um dos maiores processos corporativos do ano no país.
Nem todas as empresas que reduziram funcionários estão em recuperação. A Stone, por exemplo, cortou aproximadamente 3% de seu quadro em março, algo entre 300 e 400 empregados, principalmente em tecnologia. A companhia apresentou a decisão como uma reorganização em busca de eficiência, em um contexto que também envolve maior utilização de inteligência artificial.
Os números nacionais mostram um cenário que exige cuidado na interpretação. O Monitor RGF-BIZDOC apontava 986 empresas do varejo em recuperação judicial no final do primeiro semestre, crescimento de 20,4% em 12 meses. Esse indicador mede o estoque de companhias que continuam em recuperação.
Já a Serasa Experian, que contabiliza novos pedidos, registrou 268 processos de recuperação judicial até abril de 2026, envolvendo 602 CNPJs. O Ministério da Fazenda afirmou que, comparando os primeiros quatro meses de 2026 com o mesmo período de 2025, houve redução nos novos pedidos no comércio, na indústria e no conjunto da economia. Os dois dados não são necessariamente contraditórios: um mede quantas empresas permanecem em recuperação, enquanto o outro observa novos pedidos entrando no sistema.
Juros ainda elevados, crédito mais seletivo e consumidores endividados aparecem repetidamente nas justificativas apresentadas pelas próprias companhias em processos de reestruturação. Ao mesmo tempo, cada empresa possui problemas específicos de gestão, endividamento, expansão, concorrência ou estratégia, o que impede atribuir todos esses casos a uma única causa econômica ou política.
No caso específico do Grupo Mateus, não há base para afirmar que a empresa “não sobreviveu” ou que os cortes foram provocados diretamente pelo governo Lula, como sugerem algumas publicações. O que os números mostram é uma companhia que reduziu drasticamente estruturas menos eficientes, mas permanece lucrativa e em expansão, enquanto enfrenta um ambiente de consumo mais pressionado.
Carregando resultado da apuração das urnas…