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LAURA CARDOSO: A HISTÓRIA DE UMA DAS MAIORES ATRIZES DO BRASIL
Uma das maiores atrizes da dramaturgia brasileira morreu de causas naturais em São Paulo; pioneira da televisão, Laura participou de mais de 60 novelas e atravessou gerações com pe

Este leitor apresenta um resumo da notícia para avaliar o projeto visual. A reportagem completa está no Scarpa360.
Laura Cardoso, uma das mais importantes e longevas atrizes da história da dramaturgia brasileira, morreu aos 98 anos na noite de segunda-feira (17), em São Paulo. A artista estava em casa, no bairro do Sumaré, na Zona Oeste da capital paulista, quando se sentiu mal por volta das 23h20. Segundo sua filha, Fátima Cardoso, a morte ocorreu por causas naturais. A notícia foi comunicada pela família durante a madrugada desta terça-feira (18), por meio das redes sociais oficiais da atriz.
A despedida encerra uma trajetória de mais de oito décadas dedicada à arte. Laura atravessou praticamente toda a história da televisão brasileira e construiu uma carreira que começou antes mesmo de o país ter transmissões regulares de TV. Passou pelo rádio, teatro, cinema, dublagem e por emissoras como Tupi, Excelsior, Record, Cultura, Bandeirantes e Globo. Ao longo da vida profissional, acumulou mais de 100 trabalhos, incluindo mais de 60 novelas, além de dezenas de produções no cinema e no teatro.
Nascida Laurinda de Jesus Cardoso, em 13 de setembro de 1927, no bairro do Bixiga, em São Paulo, Laura era filha de imigrantes portugueses. O interesse pela interpretação começou ainda na infância. Ela recordava que, aos seis anos, já improvisava pequenas encenações com uma amiga na Bela Vista, usando roupas, chapéus e acessórios dos adultos para brincar de personagens. A vontade de representar cresceu mesmo diante da resistência inicial dos pais.
Aos 15 anos, decidiu seguir profissionalmente a carreira artística e começou a trabalhar em radionovelas na Rádio Cosmos. Foi nessa fase que Laurinda se transformou em Laura Cardoso. A própria atriz contou anos depois que um colega considerava “Laurinda” pouco sonoro para o rádio e sugeriu diferentes nomes artísticos. Quando ouviu “Laura”, escolheu imediatamente.
O rádio foi uma verdadeira escola. Laura não atuava apenas em radionovelas: trabalhou com locução, apresentação e humor, desenvolvendo a versatilidade que se tornaria uma de suas principais características. Mais tarde, também passou pela Rádio Tupi. Foi ainda no ambiente radiofônico que conheceu Fernando Balleroni, ator, roteirista, diretor e produtor com quem se casou e construiu uma família. O casal teve as filhas Fátima e Fernanda.
Quando a televisão ainda dava seus primeiros passos no Brasil, Laura já estava pronta para a nova linguagem. Em 1952, estreou na recém-criada TV Tupi no programa “Tribunal do Coração”. Tornou-se, assim, integrante da primeira geração de artistas que ajudaram a construir a televisão brasileira quando muitos programas eram apresentados ao vivo e qualquer erro precisava ser resolvido diante das câmeras.
Na Tupi, participou de produções como “Um Lugar ao Sol”, de 1959, adaptação do romance de Theodore Dreiser, e “Ídolo de Pano”, nos anos 1970. Durante aquele período, Laura também trabalhou em outras emissoras que tiveram papel fundamental na formação da teledramaturgia nacional. Passou pela TV Excelsior, TV Record e TV Cultura. Na Record, esteve em produções como “As Pupilas do Senhor Reitor”, em 1970, e “Os Deuses Estão Mortos”, em 1971.
Laura ainda retornou à Tupi em sua fase posterior e integrou novelas como “Os Apóstolos de Judas”, “João Brasileiro, o Bom Baiano” e “Gaivotas”. Poucos artistas conseguiram atravessar tantas transformações tecnológicas e artísticas da televisão mantendo presença constante diante das câmeras. Ela acompanhou a evolução dos programas transmitidos ao vivo para as grandes produções gravadas, a chegada do videotape, a consolidação das telenovelas e, décadas depois, a era digital.
Em 1981, depois de um período dedicado principalmente ao teatro, Laura Cardoso chegou à TV Globo a convite de Daniel Filho. Sua estreia na emissora aconteceu em “Brilhante”, novela de Gilberto Braga. Ela interpretou Alda Sampaio, mãe de Luiza, personagem de Vera Fischer. A partir dali, iniciaria uma relação de décadas com a emissora.
Logo depois, ainda trabalhou na Bandeirantes, participando das novelas “Ninho da Serpente” e “Renúncia”, ambas em 1982. De volta à Globo, integrou “Pão-Pão, Beijo-Beijo”, em 1983, como Donana, personagem que ela própria lembrava com carinho décadas depois. Vieram também “Livre para Voar”, em 1984, e “Fera Radical”, em 1988, em que viveu Marta, mulher que havia criado a protagonista Cláudia, interpretada por Malu Mader.
Nos anos 1990, Laura consolidou definitivamente sua imagem como uma das grandes damas da televisão brasileira. Participou de “Rainha da Sucata”, em 1990, e “Felicidade”, em 1991. Depois, vieram personagens que permanecem vivos na memória do público até hoje.
Em “Mulheres de Areia”, exibida em 1993, interpretou Isaura Araújo, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, vividas por Gloria Pires. A novela se tornou um dos maiores sucessos da teledramaturgia brasileira e foi reprisada diversas vezes ao longo das décadas seguintes. A interpretação de Laura ajudou a dar profundidade à família que estava no centro da rivalidade entre as duas protagonistas.
No ano seguinte, em “A Viagem”, Laura deu vida a Guiomar, outra personagem que marcou sua carreira. A trama de Ivani Ribeiro abordava espiritualidade e vida após a morte e tornou-se um dos trabalhos mais lembrados da atriz. A própria Laura recordou posteriormente que algumas crianças tinham medo de sua personagem por causa das sequências em que Guiomar era influenciada espiritualmente.
Em 1995, participou do remake de “Irmãos Coragem”, interpretando Sinhana. O trabalho lhe rendeu reconhecimento da Associação Paulista de Críticos de Arte. No mesmo ano, esteve em “Explode Coração”, vivendo Soraya, matriarca de uma família cigana. A produção entrou para a história da Globo por ter sido a primeira novela gravada nos então recém-inaugurados estúdios do Projac, atualmente Estúdios Globo.
Em 1996, voltou a chamar atenção em “Salsa e Merengue”. Nos anos seguintes, continuou acumulando personagens de diferentes perfis e demonstrando uma característica que acompanhou toda sua carreira: a capacidade de transformar papéis de apoio em figuras memoráveis.
Uma nova geração de telespectadores passou a conhecer Laura Cardoso nos anos 2000. Em “Chocolate com Pimenta”, de Walcyr Carrasco, exibida em 2003, interpretou a querida Vó Carmem, matriarca do núcleo rural da história. A personagem tornou-se uma das mais populares da novela e aproximou ainda mais Laura de um público que não havia acompanhado seus primeiros trabalhos.
Em 2009, integrou “Caminho das Índias”, de Gloria Perez, interpretando Laksmi Ananda, a matriarca de uma família indiana e mãe de Opash, personagem de Tony Ramos. A novela conquistou o Emmy Internacional de Melhor Telenovela e levou o trabalho de Laura a uma audiência internacional.
A parceria profissional e a amizade com Tony Ramos atravessaram décadas. Os dois se conheceram ainda nos tempos da TV Tupi. Após a morte da atriz, Tony recordou que observava Laura trabalhar quando dava seus primeiros passos na profissão e a definiu como uma referência absoluta da televisão. “Caminho das Índias” foi a última novela em que os dois trabalharam juntos.
Laura ainda esteve no remake de “Gabriela”, em 2012, interpretando Doroteia, uma das figuras mais conservadoras e moralistas da fictícia Ilhéus. O papel revelou novamente sua capacidade de construir personagens contraditórias e fortes, mesmo décadas depois de sua estreia profissional.
Em “O Outro Lado do Paraíso”, de 2017, viveu Caetana, proprietária de um bordel e personagem que teve uma das despedidas mais incomuns de sua trajetória televisiva. Na cena final, Caetana aparecia ascendendo durante o próprio velório ao som de uma música interpretada por Pabllo Vittar.
Seu último papel em uma novela foi Matilde Azevedo, em “A Dona do Pedaço”, também de Walcyr Carrasco, em 2019. Mesmo já com mais de 90 anos, sua participação despertou forte reação do público nas redes sociais. Depois disso, Laura se afastou das novelas, mas não considerava que estivesse aposentada. Ela mantinha contrato vitalício com a Globo e repetia em entrevistas que não conseguia imaginar a vida sem atuar.
Essa relação com o trabalho era uma das características mais conhecidas de Laura Cardoso. Mesmo em idade avançada, rejeitava a ideia de parar definitivamente. Dizia que queria continuar interpretando no teatro, na televisão e no cinema enquanto tivesse condições. Para ela, representar significava viver outras vidas e continuar aprendendo.
Mas a trajetória de Laura foi muito maior do que as novelas. No cinema, participou de dezenas de produções. Entre os filmes mais conhecidos está “Terra Estrangeira”, de Walter Salles e Daniela Thomas, lançado em 1995. Outro destaque foi “Através da Janela”, de Tata Amaral, lançado em 2000, pelo qual recebeu importantes reconhecimentos como atriz.
Também esteve em produções como “Copacabana”, dirigido por Carla Camurati, além de diferentes longas e curtas-metragens. Ao longo de sua carreira cinematográfica, diretores destacaram sua capacidade de transitar entre drama e comédia e adaptar sua interpretação às características de cada produção.
Laura também deixou sua marca na dublagem. Nos anos 1960, deu voz à personagem Betty Rubble na versão brasileira de “Os Flintstones”, acrescentando mais uma vertente à extensa trajetória artística.
No teatro, atuou em mais de uma dezena de montagens e recebeu alguns dos principais reconhecimentos da área. Conquistou o Prêmio Shell de melhor atriz em 1990, por “Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu”, e novamente em 1993, por “Vereda da Salvação”. O palco continuou sendo uma parte fundamental de sua identidade artística mesmo após a consolidação na televisão.
Os prêmios acompanharam Laura durante praticamente toda a carreira. Ela recebeu diferentes troféus da Associação Paulista de Críticos de Arte, conquistou reconhecimento no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e, em 2002, recebeu o Troféu Mário Lago pelo conjunto de sua obra na televisão.
Em 2006, Laura Cardoso recebeu a Ordem do Mérito Cultural, uma das principais condecorações concedidas pelo governo federal a personalidades que contribuíram de maneira relevante para a cultura brasileira. Já em 2023, aos 95 anos, foi homenageada com o Troféu Oscarito no Festival de Cinema de Gramado pelo conjunto da obra.
Mesmo longe das novelas nos últimos anos, Laura continuou próxima do público. Em outubro de 2025, esteve nos Estúdios Globo para inaugurar sua própria estrela na Calçada da Fama da emissora. Também participou da tradicional vinheta de fim de ano da Globo. A gravação seria seu último trabalho na televisão.
Durante essa última gravação, o diretor Adriano Melo contou que Laura pediu para se levantar da cadeira e cantar de pé ao lado dos demais participantes. O momento ganhou um significado especial após sua morte e simbolizou a determinação que marcou toda a vida profissional da atriz.
Fora das câmeras, a família ocupava um espaço cada vez maior na vida de Laura. Ela foi casada com Fernando Balleroni e teve duas filhas, Fátima e Fernanda. Nos últimos anos, mantinha uma relação especialmente próxima com o bisneto Fernando Faria, responsável também por ajudá-la na administração das redes sociais.
A própria atriz falava sobre a passagem do tempo com naturalidade. Em entrevistas, mostrava gratidão pela longevidade e dizia não acreditar que o medo da morte deveria impedir alguém de aproveitar a vida. Em 2023, aos 96 anos, afirmou à Folha que olhava para a carreira com satisfação, amor e prazer e esperava ter deixado boas lembranças por meio de seus trabalhos.
Laura chegou aos 98 anos tendo vivido praticamente um século de transformações culturais e tecnológicas. Começou quando o rádio era o principal meio de entretenimento das famílias brasileiras, participou dos primeiros anos da televisão, atravessou a consolidação das novelas, trabalhou no cinema por diferentes gerações e chegou à era das redes sociais ainda sendo reconhecida por públicos de diferentes idades.
Seu currículo inclui mais de 60 novelas e mais de 100 trabalhos televisivos e audiovisuais, além de filmes e peças de teatro. Entre “Brilhante”, “Pão-Pão, Beijo-Beijo”, “Fera Radical”, “Rainha da Sucata”, “Felicidade”, “Mulheres de Areia”, “A Viagem”, “Irmãos Coragem”, “Explode Coração”, “Salsa e Merengue”, “Chocolate com Pimenta”, “Caminho das Índias”, “Gabriela”, “O Outro Lado do Paraíso” e “A Dona do Pedaço”, Laura Cardoso construiu uma galeria de personagens que atravessou diferentes fases da teledramaturgia brasileira.
A morte foi anunciada pelo perfil oficial da artista com uma mensagem de despedida publicada pela família. Laura foi velada nesta terça-feira (18), entre 8h e 14h, no Funeral Home, em São Paulo, em cerimônia reservada.
Mais do que a despedida de uma atriz, a morte de Laura Cardoso representa o encerramento de um capítulo que se confunde com a própria história da dramaturgia brasileira. Poucos artistas permaneceram em atividade durante tanto tempo, atravessaram tantas gerações e conseguiram ser reconhecidos tanto por quem acompanhou os primeiros anos da televisão quanto por quem a conheceu em novelas produzidas mais de meio século depois de sua estreia.
Laura Cardoso deixa uma obra construída durante mais de oito décadas e uma coleção de personagens, filmes, peças e momentos que permanecem registrados na memória da cultura brasileira.
Carregando resultado da apuração das urnas…