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NORDESTE CONCENTROU 78% DOS SHOWS ANALISADOS EM LEVANTAMENTO SOBRE CONTRATOS PÚBLICOS

Estudo do observatório De Olho nos Ruralistas aponta R$ 2,22 bilhões em contratações na região; dado, porém, não representa todos os shows públicos realizados no Brasil

NORDESTE CONCENTROU 78% DOS SHOWS ANALISADOS EM LEVANTAMENTO SOBRE CONTRATOS PÚBLICOS

Este leitor apresenta um resumo da notícia para avaliar o projeto visual. A reportagem completa está no Scarpa360.

Um levantamento do observatório De Olho nos Ruralistas colocou o Nordeste no centro do debate sobre o uso de recursos públicos para a contratação de artistas.

Segundo o estudo, a região recebeu 5.818 das 7.412 apresentações realizadas pelos 40 artistas que mais acumularam contratos públicos entre janeiro de 2024 e março de 2026. O número corresponde a aproximadamente 78,5% dos shows analisados.

Essas apresentações movimentaram R$ 2,22 bilhões em contratos firmados por prefeituras e governos estaduais nordestinos. O valor representa 72% dos R$ 3,08 bilhões acumulados pelos 40 artistas incluídos no ranking nacional.

O que o levantamento realmente analisou?

A informação divulgada nas redes como “Nordeste recebeu quase 80% dos shows públicos do país” precisa ser apresentada com uma ressalva importante.

O estudo não contabilizou todos os shows financiados com dinheiro público no Brasil. O observatório analisou mais de 20 mil contratos, mas o recorte de 7.412 apresentações considera apenas os 40 artistas que receberam pelo menos R$ 50 milhões cada em contratações públicas no período.

Portanto, é correto afirmar que o Nordeste concentrou quase 80% dos shows realizados pelos artistas desse grupo. Não é possível, com base nesse levantamento, concluir que a região recebeu 80% de absolutamente todos os shows públicos realizados no país.

Essa diferença é essencial para evitar que um dado verdadeiro seja divulgado de maneira mais ampla do que a pesquisa permite.

Bahia e Pernambuco lideram os gastos

A Bahia aparece na primeira posição do levantamento regional, com R$ 578,47 milhões em contratos para apresentações artísticas desde 2024.

Pernambuco vem logo depois, com R$ 573,10 milhões, seguido pelo Ceará, que acumulou R$ 315,98 milhões. Minas Gerais aparece como o primeiro estado fora do Nordeste no ranking nacional, com R$ 192,04 milhões.

Entre os estados nordestinos, o Piauí apresentou o menor valor do período, com aproximadamente R$ 79 milhões em contratos.

Os números reúnem tanto contratações realizadas diretamente pelos governos estaduais quanto acordos firmados por administrações municipais.

Quais artistas receberam mais?

O ranking é liderado por Natanzinho Lima, cantor sergipano ligado ao brega e ao arrocha. De acordo com o levantamento, ele acumulou R$ 158,17 milhões em contratos para 336 apresentações realizadas em todo o país.

A média foi de aproximadamente 12,4 shows públicos por mês durante os 27 meses analisados, equivalente a cerca de três apresentações por semana.

Na segunda posição aparece Henry Freitas, com cerca de R$ 125,9 milhões, seguido por Wesley Safadão, com aproximadamente R$ 113 milhões.

O levantamento também aponta Maiara & Maraisa como a principal representante do sertanejo no grupo dos dez primeiros, com R$ 101,7 milhões. A dupla é a única atração feminina presente no top 10.

Por que o Nordeste concentra tantos shows?

Segundo os pesquisadores e especialistas ouvidos na apuração, a concentração é explicada por uma combinação de fatores.

Um deles é a força das grandes produtoras instaladas na região. Cinco empresas nordestinas administram as carreiras de 21 dos 40 artistas mais contratados e, juntas, concentram cerca de R$ 2,4 bilhões em acordos públicos.

Para o jornalista Alceu Castilho, coordenador do levantamento, essas produtoras exercem forte influência sobre o mercado e conseguem organizar grandes circuitos de apresentações junto a prefeituras e governos estaduais. Segundo ele, a agenda de muitos shows públicos no país é definida por essas estruturas empresariais.

Outro fator é o calendário regional. Festas de São João, carnavais, aniversários municipais, réveillons e festivais estaduais criam uma demanda contínua por atrações musicais.

A proximidade entre diversos municípios nordestinos também reduz custos. Artistas podem realizar apresentações em cidades separadas por distâncias relativamente pequenas, aproveitando a mesma estrutura de ônibus, equipamentos e equipes técnicas.

Em outras regiões, especialmente no Norte, as grandes distâncias e a menor disponibilidade de aeroportos tornam a logística mais cara. No Sul, Sudeste e Centro-Oeste, eventos de grande porte, como rodeios e festas agropecuárias, têm participação mais expressiva da iniciativa privada.

Os R$ 2,22 bilhões são cachês já pagos?

O estudo utiliza valores de contratos públicos identificados no período. Isso significa que a cifra de R$ 2,22 bilhões representa o montante contratado para as apresentações analisadas.

Em levantamentos desse tipo, “valor contratado” não significa necessariamente que todo o dinheiro já tenha sido efetivamente pago. Um contrato pode ser cancelado, alterado, adiado ou ter seu pagamento condicionado à realização do evento.

Por isso, a forma mais precisa de apresentar o dado é dizer que os artistas somaram R$ 2,22 bilhões em contratos públicos no Nordeste, e não necessariamente que receberam integralmente todo esse valor.

O maior cachê individual

O maior valor identificado para uma única apresentação foi de R$ 2,35 milhões, pago pelo Governo de Roraima ao cantor Leonardo por um show realizado no réveillon de Boa Vista, em 31 de dezembro de 2025.

O caso mostra que, embora o Nordeste concentre a maior quantidade e o maior volume total de contratos do grupo analisado, cachês elevados também são registrados em outras regiões.

Investimento cultural ou falta de prioridade?

Os shows públicos fazem parte de uma cadeia que movimenta turismo, hotéis, bares, restaurantes, comércio informal, produção artística e empregos temporários. Em muitas cidades, festas tradicionais estão entre as principais atrações econômicas do ano.

Por outro lado, o volume de recursos provoca questionamentos quando municípios com dificuldades em serviços básicos destinam milhões a eventos.

Um dos casos citados é o de Goiana, em Pernambuco. O município, com aproximadamente 85 mil habitantes, aparece como o quarto maior contratante do levantamento, com R$ 25,58 milhões destinados aos artistas analisados.

Ao mesmo tempo, dados apresentados na reportagem apontam que cerca de 45% da população local vive sem água tratada e 60% não possui acesso à rede de esgoto.

Especialistas destacam que a contratação de shows não é ilegal por si só. O debate envolve os critérios utilizados, a transparência, o retorno econômico e a compatibilidade dos gastos com a situação financeira de cada município.

28 de jul. de 2026 · Redação Scarpa360