SCARPA360A visão completa da notíciaPORTAL · RÁDIO · TV
A visão completa
da notícia
Segurança

O MAIOR PERIGO PARA O SEU FILHO PODE ESTAR DENTRO DE CASA: OS RISCOS ESCONDIDOS NO ROBLOX

Morte de uma criança de 8 anos no Norte de Minas acende novo alerta sobre desafios perigosos, aliciamento e conteúdos nocivos em jogos on-line; polícia investiga possível relação c

O MAIOR PERIGO PARA O SEU FILHO PODE ESTAR DENTRO DE CASA: OS RISCOS ESCONDIDOS NO ROBLOX

Este leitor apresenta um resumo da notícia para avaliar o projeto visual. A reportagem completa está no Scarpa360.

O objeto que cabe na palma da mão, acompanha a criança no quarto e parece oferecer apenas diversão pode também abrir uma porta para riscos que muitos pais não conseguem enxergar.

Atrás das cores, dos personagens e das partidas compartilhadas com amigos, jogos on-line podem colocar crianças em contato com desconhecidos, grupos que incentivam comportamentos perigosos, conteúdos impróprios e mecanismos de manipulação psicológica. Em alguns casos, a conversa iniciada dentro de uma plataforma migra para aplicativos de mensagens, onde a supervisão e os filtros de segurança podem ser ainda menores.

A morte de um menino de 8 anos em Campo Azul, no Norte de Minas Gerais, trouxe novamente esse debate para dentro das casas brasileiras. A criança foi sepultada nesta terça-feira, 14 de julho, data em que completaria 9 anos. A Polícia Civil de Minas Gerais investiga as circunstâncias da morte e apura se existe alguma relação com conteúdos acessados em uma plataforma de jogos on-line, citada pela família como sendo o Roblox.

O celular utilizado pelo menino foi recolhido pela perícia e deverá ser analisado pelos investigadores. O objetivo é verificar o histórico de acessos, mensagens, contatos, jogos e eventuais interações mantidas pela criança antes da morte. Até o momento, porém, a polícia não confirmou que um desafio dentro do Roblox tenha provocado o caso. Essa possibilidade permanece como uma linha de investigação, e qualquer conclusão antes do resultado pericial seria precipitada.

Segundo as informações registradas na ocorrência, o menino vivia com a mãe, o padrasto e duas irmãs. Familiares relataram que ele era introspectivo e passava bastante tempo jogando. Esses elementos, isoladamente, não permitem estabelecer causa ou responsabilidade, mas ajudam os investigadores a reconstruir a rotina digital da criança.

NÃO É APENAS UM JOGO

Criado como uma plataforma em que os próprios usuários podem desenvolver e compartilhar experiências virtuais, o Roblox reúne milhões de jogos, salas e ambientes diferentes. Na prática, funciona também como uma grande rede social: os participantes conversam, fazem amizades, entram em grupos e interagem com pessoas que podem estar em qualquer lugar do mundo.

Esse formato amplia as possibilidades de entretenimento, mas também dificulta o controle integral do que é criado e compartilhado dentro da plataforma.

Uma pesquisa acadêmica publicada em 2026 analisou cerca de 2 milhões de mensagens em jogos do Roblox e identificou conteúdos relacionados a assédio, intimidação, violência, automutilação, compartilhamento de informações pessoais e tentativas de aliciamento que conseguiram escapar dos sistemas de moderação. Os pesquisadores também observaram que usuários mal-intencionados recorrem a códigos, alterações na escrita e outras estratégias para contornar os filtros automáticos.

No Brasil, a delegada Lisandrea Salvariego Colabuono, que atua em investigações envolvendo crimes contra crianças, afirmou em reportagem do Fantástico que cerca de 90% das vítimas atendidas em determinados casos de exploração digital teriam sido inicialmente abordadas dentro do Roblox. A declaração se refere especialmente ao uso da plataforma como ponto inicial de aproximação por predadores, e não significa que 90% de todas as crianças que utilizam o jogo estejam em risco ou sejam vítimas.

Em diferentes investigações, criminosos se apresentam como crianças ou adolescentes, conquistam a confiança da vítima e depois tentam levar a conversa para outras plataformas. Em um caso nos Estados Unidos, um homem foi acusado de se passar por adolescente e coagir uma menina de 9 anos a compartilhar imagens íntimas após contatos mantidos no TikTok e no Roblox.

OUTROS CASOS AUMENTAM O ALERTA

O caso de Campo Azul não é o único a colocar o Roblox no centro de investigações envolvendo crianças e adolescentes.

Em abril de 2026, no Recife, um adolescente de 14 anos foi apreendido após esfaquear seis vezes o próprio pai, de 43 anos, dentro de casa. Segundo o relato inicial do jovem, ele teria recebido instruções de um desconhecido dentro da plataforma para matar o pai e, depois, tirar a própria vida. A ação também teria sido gravada como uma possível prova do cumprimento da ordem.

O pai sobreviveu e recebeu alta hospitalar. A Polícia Civil de Pernambuco investiga a origem das mensagens e a possível participação de terceiros. Até a conclusão do inquérito, a ligação entre o ataque e um suposto desafio no Roblox deve ser tratada como hipótese investigada, e não como fato definitivamente comprovado.

Em outro episódio divulgado em maio, uma criança de 6 anos teria sido abordada por um perfil desconhecido enquanto jogava. A pessoa teria oferecido mil Robux, moeda virtual utilizada na plataforma, para que ela realizasse uma ação com uma faca contra o próprio abdômen. A família percebeu a situação e conseguiu impedir que a criança se ferisse. O relato reforçou o alerta sobre usuários que oferecem recompensas virtuais para conquistar a confiança de menores e induzi-los a comportamentos perigosos.

No Rio de Janeiro, a Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima abriu um inquérito para investigar possíveis crimes dentro do Roblox. Entre os conteúdos apurados estão experiências que simulam roubos, confrontos, tráfico de drogas e violência armada. A polícia busca identificar os criadores desses ambientes e determinar se houve exposição criminosa de crianças e adolescentes.

Esses episódios possuem circunstâncias diferentes e não permitem concluir que o Roblox, por si só, provoque comportamentos violentos ou autodestrutivos. Eles mostram, contudo, como plataformas abertas podem ser utilizadas por desconhecidos para abordar menores, oferecer recompensas, manipular emoções e transformar brincadeiras virtuais em situações de risco real.

DESAFIOS PERIGOSOS E O RISCO DE PÂNICO SEM PROVAS

Os chamados “desafios da internet” não são um fenômeno novo. Ao longo dos últimos anos, crianças e adolescentes foram expostos a conteúdos que incentivavam sufocamento, ingestão ou inalação de produtos, queimaduras, saltos, automutilação e outras práticas de alto risco.

Em abril de 2025, uma menina de 8 anos morreu no Distrito Federal depois de participar do chamado “desafio do desodorante”, que circulava na internet. A Polícia Civil instaurou inquérito para investigar o caso. A criança sofreu uma parada cardiorrespiratória após inalar o gás de um produto aerossol.

Esse episódio não ocorreu necessariamente dentro do Roblox, mas demonstra como conteúdos apresentados como brincadeira podem ter consequências fatais.

Ao mesmo tempo, especialistas recomendam cautela para que casos ainda não esclarecidos não sejam transformados em conclusões definitivas. A SaferNet Brasil já alertou que a divulgação sensacionalista de supostos “jogos do suicídio” pode gerar pânico, aumentar a curiosidade de crianças e espalhar nomes de desafios que antes eram desconhecidos. A orientação é informar sem detalhar instruções, sem romantizar a morte e sem atribuir automaticamente um suicídio a um único jogo, aplicativo ou conteúdo.

O suicídio é um fenômeno complexo, geralmente relacionado a uma combinação de fatores emocionais, familiares, sociais e psicológicos. Um conteúdo digital pode atuar como elemento de pressão, incentivo ou agravamento, mas somente uma investigação técnica pode determinar o peso que teve em cada caso.

FAMÍLIAS NO ESCURO

Um dos principais obstáculos enfrentados pelos responsáveis é a falsa sensação de segurança. Como os gráficos parecem infantis, muitos adultos acreditam que todos os usuários também são crianças e que todas as experiências disponíveis são adequadas à idade.

Não é assim!

Dentro de plataformas abertas, uma criança pode conversar com adultos, acessar ambientes criados por terceiros e receber convites para interações fora do jogo. O risco aumenta quando o celular é utilizado sozinho no quarto, durante a madrugada, sem acompanhamento e com contas configuradas para uma idade superior à real.

Especialistas em segurança digital recomendam que os responsáveis não se limitem a perguntar quanto tempo a criança passou jogando. É preciso saber com quem ela conversa, quais jogos acessa, que mensagens recebe e por que determinadas pessoas pedem para continuar a conversa em outro aplicativo.

A supervisão também não deve se transformar apenas em vigilância ou punição. Quando a criança acredita que perderá o celular ou será repreendida, pode esconder uma ameaça, chantagem ou abordagem suspeita. O diálogo precisa permitir que ela peça ajuda sem medo.

Mudanças repentinas de comportamento merecem atenção: isolamento, irritação após usar o celular, medo de receber mensagens, uso escondido durante a madrugada, exclusão frequente do histórico, presentes virtuais enviados por desconhecidos, pressão para guardar segredos ou marcas de automutilação.

Nenhum desses sinais comprova, sozinho, que exista um crime ou desafio perigoso. Mas eles justificam uma conversa cuidadosa e, quando necessário, a busca por ajuda especializada.

O QUE DIZ A LEI BRASILEIRA

O Brasil passou a contar, em 2025, com o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, instituído pela Lei nº 15.211. A norma se aplica a jogos, redes sociais, aplicativos e outros serviços digitais destinados a menores ou com alta probabilidade de serem acessados por eles.

A legislação estabelece deveres para as plataformas, incluindo medidas de proteção por padrão, mecanismos de controle parental, redução da exposição a conteúdos inadequados e ferramentas de verificação ou aferição de idade. A lei também prevê regras e sanções para empresas que não adotarem as providências exigidas.

O texto foi regulamentado em 2026 e atribuiu à Agência Nacional de Proteção de Dados funções de fiscalização administrativa.

Além do ECA Digital, a Lei nº 14.852, de 2024, trata especificamente da proteção de crianças e adolescentes em jogos eletrônicos e determina que o design, a gestão e o funcionamento dessas plataformas considerem a segurança dos usuários mais jovens.

Isso não significa, contudo, que o governo possa simplesmente proibir todo o Roblox no Brasil sem processo administrativo, decisão judicial ou fundamentação legal específica. O caminho previsto pela legislação é exigir proteção, responsabilizar empresas por falhas, remover conteúdos ilícitos, investigar usuários criminosos e aplicar sanções quando houver descumprimento das normas.

Dependendo da conduta identificada, responsáveis por grupos ou desafios podem responder por crimes como induzimento ou instigação ao suicídio ou à automutilação, ameaça, perseguição, extorsão, produção ou solicitação de conteúdo sexual infantil e cyberbullying. A legislação brasileira passou a tratar o cyberbullying como crime, com penas que podem ser agravadas quando a conduta provoca consequências mais graves.

COBRANÇA INTERNACIONAL CONTRA A PLATAFORMA

O Roblox também enfrenta crescente pressão fora do Brasil. Em dezembro de 2025, dezenas de processos relacionados a alegações de exploração sexual infantil foram reunidos em uma corte federal dos Estados Unidos. As ações acusam a empresa de permitir que predadores abordassem menores dentro da plataforma e migrassem as conversas para outros serviços. A companhia nega as acusações e afirma que investe em moderação e segurança.

Há ainda ações judiciais apresentadas por famílias que associam experiências de aliciamento on-line à deterioração da saúde mental e à morte de adolescentes. Esses casos representam alegações feitas nos tribunais e ainda não equivalem a condenações definitivas da empresa.

Em 2025, o governo do Iraque proibiu o Roblox no país, alegando preocupações com a segurança infantil e riscos de abuso. Outros países passaram a discutir verificações de idade e restrições mais duras para plataformas utilizadas por menores.

O QUE DIZ O ROBLOX

A Roblox Corporation afirma manter sistemas automáticos e equipes humanas de moderação, canais de denúncia, filtros de linguagem, controles parentais e restrições de comunicação baseadas na idade.

A empresa também sustenta que comportamentos criminosos e conteúdos relacionados a exploração, automutilação ou incentivo à violência violam suas regras. Em respostas públicas a processos e denúncias, a companhia afirma que a segurança infantil é uma prioridade e que trabalha continuamente para aprimorar suas ferramentas.

As medidas, porém, são questionadas por famílias, pesquisadores e autoridades que afirmam que a escala da plataforma e a criatividade dos usuários mal-intencionados permitem que parte dos conteúdos escape da fiscalização.

O QUE OS PAIS PODEM FAZER AGORA

O primeiro passo é abandonar a ideia de que o perigo digital sempre chega pela aparência de um estranho. Muitas vezes, ele se apresenta como um colega de jogo, alguém que oferece moedas virtuais, um convite para uma sala privada ou um desafio tratado como prova de coragem.

Os responsáveis devem manter a conta com a idade verdadeira da criança, restringir mensagens de desconhecidos, revisar a lista de amigos, ativar os controles parentais, estabelecer horários de uso e evitar que crianças pequenas utilizem o aparelho sem acompanhamento durante a madrugada.

Também é importante explicar que ninguém pode exigir segredo, imagens, provas de coragem ou mudança para aplicativos privados. Qualquer ameaça deve ser registrada por meio de capturas de tela e comunicada à plataforma e à polícia, sem que os pais confrontem diretamente o possível criminoso.

No caso de Campo Azul, a resposta definitiva dependerá do trabalho da perícia. O conteúdo do celular poderá revelar se houve contato com terceiros, acesso a desafios ou qualquer outro elemento relevante. Até lá, a tragédia precisa ser tratada com responsabilidade.

Acompanhe tudo em primeira mão: siga o @scarpa.360 no Instagram e fique por dentro das principais notícias do momento.

15 de jul. de 2026 · Redação Scarpa360