SCARPA360A visão completa da notíciaPORTAL · RÁDIO · TV
A visão completa
da notícia
Saúde

PACIENTE COM ALZHEIMER AVANÇADO RECUPERA FALA, MEMÓRIA E AUTONOMIA APÓS USO DE COGUMELOS COM PSILOCIBINA

Relato científico publicado na Frontiers in Neuroscience descreve melhora temporária após uma única sessão; pesquisadores alertam que caso não comprova cura nem eficácia da psiloci

PACIENTE COM ALZHEIMER AVANÇADO RECUPERA FALA, MEMÓRIA E AUTONOMIA APÓS USO DE COGUMELOS COM PSILOCIBINA

Este leitor apresenta um resumo da notícia para avaliar o projeto visual. A reportagem completa está no Scarpa360.

Um relato científico publicado em maio de 2026 chamou a atenção ao descrever mudanças incomuns em uma mulher nipo-americana com Alzheimer em estágio avançado após a administração de cogumelos contendo psilocibina, substância psicodélica encontrada em determinadas espécies de fungos.

O trabalho foi publicado em 28 de maio na revista Frontiers in Neuroscience e também está indexado no PubMed, base da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos. Os autores são Marcos Lago, Mariana Cerveira e Joe Xavier Simonet, ligados ao departamento médico da Associação Cruz de Ankh, em São Paulo.

A paciente é descrita pelos pesquisadores apenas como uma mulher nipo-americana na faixa dos 80 anos. O artigo não divulga seu nome nem sua idade exata. Ela havia recebido diagnóstico clínico de Alzheimer aproximadamente dez anos antes e apresentava grave comprometimento funcional. Nos cinco anos anteriores à intervenção, sua fala havia se tornado predominantemente monossilábica, acompanhada por grande redução da comunicação espontânea.

Além das dificuldades de linguagem, a mulher apresentava incontinência urinária crônica, problemas para caminhar sem ajuda, dificuldade para engolir, perda de autonomia para atividades cotidianas, comprometimento executivo e pouca expressão emocional e interação social.

O QUE ACONTECEU APÓS A PRIMEIRA SESSÃO

A paciente recebeu por via oral 5 gramas de cogumelos da variedade Enigma contendo psilocibina. É importante observar que foram 5 gramas de cogumelos, e não 5 gramas de psilocibina pura.

Nas primeiras horas, os pesquisadores relataram forte sudorese, suspeita clínica de aumento da temperatura corporal e um estado prolongado semelhante a sono profundo. Aproximadamente 19 horas depois, ocorreu a mudança que mais chamou atenção: a paciente acordou e iniciou espontaneamente uma conversa autobiográfica que durou várias horas.

Nos dias seguintes, outras capacidades reapareceram ou melhoraram. No primeiro dia, ela demonstrou maior estado de alerta e reconhecimento de familiares. No segundo, passou a caminhar de forma independente. Entre o segundo e o terceiro dias, voltou a se vestir sozinha e apresentou iniciativa espontânea.

Os pesquisadores registraram ainda a recuperação do controle urinário, depois de anos de incontinência. Nos dias seguintes, também observaram recuperação de informações contextuais, maior contato visual, sorrisos recíprocos, participação em conversas e maior expressão emocional.

Parte dessas mudanças persistiu por semanas. Um mês depois da primeira intervenção, a paciente continuava com controle urinário e apresentava funcionamento melhor do que antes da sessão.

Diante da persistência das mudanças, foi realizada uma segunda sessão supervisionada, desta vez com 3 gramas de cogumelos contendo psilocibina. Depois dela, os pesquisadores observaram maior expressividade verbal, humor espontâneo, melhora nas expressões faciais e mais agilidade ao caminhar.

ISSO SIGNIFICA QUE A PSILOCIBINA CUROU O ALZHEIMER?

Não.

Os próprios autores são enfáticos ao afirmar que o caso não demonstra reversão da doença de Alzheimer.

Trata-se do acompanhamento de uma única paciente, sem grupo de controle. Também não foram utilizados exames avançados de neuroimagem, biomarcadores formais ou escalas cognitivas padronizadas para medir objetivamente todas as mudanças. Por isso, não é possível estabelecer que a psilocibina tenha sido a causa das melhoras nem prever que o mesmo ocorreria com outros pacientes.

O diagnóstico de Alzheimer também havia sido feito clinicamente. O artigo informa que não havia confirmação por biomarcadores ou neuroimagem avançada, razão pela qual os próprios pesquisadores reconhecem que componentes vasculares ou outras causas neurodegenerativas não podem ser totalmente excluídos.

A hipótese discutida pelos cientistas é diferente de uma “cura”: algumas capacidades funcionais poderiam permanecer preservadas de maneira latente mesmo em estágios avançados da neurodegeneração e, em determinadas condições, tornar-se temporariamente acessíveis.

A psilocibina atua principalmente sobre receptores serotoninérgicos 5-HT2A e pesquisas anteriores demonstraram que a substância pode produzir alterações temporárias na organização e conectividade de redes cerebrais. Entretanto, como esses mecanismos poderiam agir especificamente em pessoas com Alzheimer avançado ainda é uma questão em aberto.

Atualmente, pesquisas clínicas com psilocibina envolvendo Alzheimer ainda estão em estágio inicial. Um estudo da Universidade Johns Hopkins, por exemplo, investiga a substância em pessoas com comprometimento cognitivo leve ou Alzheimer inicial que também apresentam depressão — objetivo bastante diferente de demonstrar reversão da demência.

POST VIRAL CONTÉM INFORMAÇÕES NÃO CONFIRMADAS

A versão que circula nas redes sociais identifica a paciente como “Masako Soga, de 81 anos”, afirma que o procedimento ocorreu em uma clínica na Jamaica e atribui o estudo aos pesquisadores Simon Ruffell e Nigel Strauss.

Essas informações não constam no artigo científico original. O estudo descreve a paciente apenas como uma mulher nipo-americana octogenária; não menciona “Masako Soga”, Jamaica, Ruffell ou Strauss. Os autores registrados são Marcos Lago, Mariana Cerveira e Joe Xavier Simonet.

O artigo afirma apenas que se tratou de um caso observado em prática clínica privada e que o responsável legal pela paciente autorizou a publicação das informações clínicas.

Por isso, apesar de o núcleo da história ser verdadeiro — uma paciente com Alzheimer avançado apresentou melhorias temporárias significativas após receber cogumelos contendo psilocibina —, o caso deve ser tratado como uma observação científica preliminar, e não como evidência de que cogumelos psicodélicos tratam ou curam Alzheimer.

08 de set. de 2026 · Redação Scarpa360