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TRÊS DÉCADAS APÓS MORTE DE QUATRO CIVIS, RAÚL CASTRO VIRA ALVO DE NOVO MANDADO DE PRISÃO NOS EUA

A Justiça americana voltou a responsabilizar judicialmente uma das figuras mais influentes da história recente de Cuba.

TRÊS DÉCADAS APÓS MORTE DE QUATRO CIVIS, RAÚL CASTRO VIRA ALVO DE NOVO MANDADO DE PRISÃO NOS EUA

A Justiça americana voltou a responsabilizar judicialmente uma das figuras mais influentes da história recente de Cuba. Aos 95 anos, o ex-presidente Raúl Castro passou a ser alvo de um novo mandado de prisão nos Estados Unidos, desta vez emitido por uma corte estadual da Flórida, em um processo relacionado à morte de quatro pessoas durante uma operação militar cubana realizada há três décadas.

A medida foi anunciada na segunda-feira (19) pelo procurador-geral da Flórida, James Uthmeier, durante uma entrevista coletiva na Universidade Internacional da Flórida, em Miami.

Castro é acusado de conspiração para cometer homicídio em primeiro grau. Segundo os investigadores americanos, ele teria participado do planejamento de uma operação que terminou com a derrubada de duas aeronaves civis em 24 de fevereiro de 1996.

O episódio provocou uma crise diplomática entre Washington e Havana e permanece como um dos acontecimentos mais controversos das relações entre os dois países.

O ATAQUE QUE MATOU QUATRO PESSOAS EM 1996

Em 24 de fevereiro de 1996, três pequenas aeronaves da organização Hermanos al Rescate, conhecida em inglês como Brothers to the Rescue, partiram da região de Miami em direção ao Estreito da Flórida.

O grupo, formado principalmente por exilados cubanos, havia sido criado para localizar pessoas que tentavam deixar Cuba em embarcações improvisadas. Seus integrantes realizavam voos de observação e alertavam equipes de resgate sobre migrantes em perigo no mar.

Naquele dia, dois aviões Cessna desarmados foram interceptados por caças militares cubanos e destruídos por mísseis.

Os quatro ocupantes morreram: Carlos Costa, Armando Alejandre Jr., Mario de la Peña e Pablo Morales.

Três deles eram cidadãos americanos, enquanto o quarto era residente permanente dos Estados Unidos.

Segundo as autoridades americanas e conclusões posteriormente apresentadas pela Organização da Aviação Civil Internacional, as aeronaves foram atingidas fora do espaço aéreo cubano.

O governo de Cuba, entretanto, sustentou que o grupo havia realizado violações de seu espaço aéreo em outras ocasiões e considerou suas atividades provocações contra a segurança nacional.

INVESTIGADORES ACUSAM RAÚL CASTRO DE PARTICIPAR DO PLANEJAMENTO

Na época do ataque, Raúl Castro ocupava o cargo de ministro das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba e era uma das principais autoridades do governo comandado por seu irmão, Fidel Castro.

A nova acusação da Flórida sustenta que agentes de inteligência cubanos infiltrados na comunidade de exilados forneceram informações sobre os deslocamentos, os planos e a operação dos aviões.

Segundo a Promotoria, esses dados teriam sido utilizados para organizar a interceptação das aeronaves.

Os investigadores afirmam que Raúl Castro teria autorizado o uso de força letal contra os integrantes da organização.

A acusação, porém, ainda precisa ser examinada judicialmente. A existência do mandado não equivale a uma condenação nem demonstra, por si só, que todas as alegações da Promotoria estejam comprovadas.

MANDADO FOI ASSINADO POR JUÍZA DE MIAMI

A ordem judicial foi assinada pela juíza Ariana Fajardo Orshan, presidente do Tribunal do 11º Circuito Judicial da Flórida.

O procurador-geral James Uthmeier afirmou que o estado decidiu retomar uma investigação que havia permanecido sem uma conclusão criminal contra o ex-presidente cubano.

Segundo ele, o objetivo é responsabilizar os envolvidos nas mortes e oferecer uma resposta às famílias das vítimas.

A nova acusação estadual é diferente do processo federal iniciado anteriormente neste ano.

Em maio de 2026, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos já havia anunciado acusações contra Raúl Castro e outras cinco pessoas por suposta participação na destruição das aeronaves e nas mortes dos ocupantes.

O processo federal inclui quatro acusações de homicídio, conspiração para matar cidadãos americanos e destruição de aeronaves.

RAÚL CASTRO PODERÁ SER PRESO?

Embora exista um mandado de prisão, sua execução enfrenta obstáculos políticos e jurídicos consideráveis.

Raúl Castro permanece em Cuba, país que mantém relações profundamente tensas com os Estados Unidos.

Não existe confirmação de que autoridades americanas tenham condições de cumprir a ordem judicial em território cubano.

O procurador-geral da Flórida reconheceu que a detenção não deverá ocorrer imediatamente.

Entretanto, segundo as autoridades estaduais, o mandado poderá restringir a possibilidade de viagens internacionais do ex-presidente, já que deslocamentos para determinados países poderiam aumentar o risco de uma eventual prisão ou pedido de extradição.

A existência da ordem, por si só, não obriga todos os países a deter Castro. Uma eventual cooperação internacional dependeria das regras jurídicas e das decisões das autoridades de cada território.

QUEM É RAÚL CASTRO?

Raúl Castro é irmão de Fidel Castro e uma das principais figuras da Revolução Cubana de 1959.

Durante décadas, comandou as Forças Armadas Revolucionárias e ocupou posições centrais no sistema político cubano.

Assumiu oficialmente a Presidência de Cuba em 2008, após o afastamento de Fidel por problemas de saúde.

Permaneceu no comando do país até 2018, quando foi sucedido por Miguel Díaz-Canel.

Em 2021, deixou também a liderança do Partido Comunista de Cuba, encerrando sua participação formal nos cargos mais elevados do governo e do partido.

Apesar da aposentadoria política, Raúl ainda é considerado uma figura de grande influência histórica e institucional em Cuba.

GOVERNO CUBANO CONTESTA ACUSAÇÕES AMERICANAS

O governo cubano rejeitou anteriormente as acusações federais apresentadas em maio, classificando-as como politicamente motivadas.

Havana sustenta que as operações realizadas pelo grupo de exilados representavam ameaças à soberania do país.

As autoridades americanas, por sua vez, afirmam que a derrubada de aeronaves civis desarmadas, fora do espaço aéreo cubano, constituiu uma ação criminosa.

O episódio continua sendo objeto de controvérsia política e jurídica.

A nova decisão ocorre em um contexto de agravamento das relações entre Estados Unidos e Cuba, marcado por sanções econômicas e divergências sobre questões de segurança regional.

CASO REABRE UMA DISPUTA QUE DURA 30 ANOS

A emissão do novo mandado demonstra que o episódio de 1996 continua produzindo consequências diplomáticas e judiciais.

Para os familiares das quatro vítimas, o avanço das acusações representa uma nova tentativa de responsabilização pelos acontecimentos.

Do ponto de vista jurídico, entretanto, ainda não há julgamento definitivo sobre a responsabilidade individual de Raúl Castro.

Os próximos desdobramentos dependerão da tramitação dos processos nos Estados Unidos, da possibilidade de comparecimento dos acusados perante a Justiça e de eventuais iniciativas de cooperação internacional.

Trinta anos depois da derrubada dos aviões, o caso permanece como um dos principais pontos de conflito entre Washington e Havana.